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DO PUGILATO À CONSAGRAÇÃO
TIME OUT Lisboa
Catarina Homem Marques




Uma das obras maiores da dança completa agora 100 anos de existência e a Companhia Nacional de Bailado assinala a data com a reposição da versão de Olga Roriz. Catarina Homem Marques foi atrás das cinco coisas que tem mesmo de saber sobre A Sagração da Primavera.

1 - Hoje já não se espera que aconteça alguma coisa assim, mas os eventos que marcaram a estreia de A Sagração da Primavera no dia 29 de Maio de 1913 em Paris são quase tão míticos como o próprio espectáculo. Os relatos que sobreviveram a esse dia falam de um verdadeiro motim, com pessoas a abandonar a sala desde os primeiros acordes, vaias constantes e discussões acesas entre defensores e críticos do que estava a acontecer em palco. E entre o público aquilo que só se espera num estádio de futebol: violentas cenas de pugilato que exigiram a intervenção da polícia. Numa análise a frio, sabe-se que a composição de Stravinsky e a coreografia de Nijinsky foram revolucionárias em partes iguais. Mas consta que na altura, também porque o barulho não ajudava à audição, a reacção foi mais pelo lado visual da dança, com o coreógrafo a ter de gritar as contagens aos bailarinos.
 
2 - A coreografia de Nijinsky apresentada nessa noite pela companhia Ballets Russes só teve oito apresentações (cinco em Paris e três em Londres) antes de cair num grande período de esquecimento. Logo em 1920 o director da companhia encomendou uma versão mais simples a Léonide Massine e foi essa que sobreviveu durante mais de 60 anos. É possível que se tenha fugido para a opção mais fácil com medo de mais tumultos enraivecidos do público, mesmo que a reacção apaixonada tenha sido só na estreia, mas não se pense que por causa disso nunca mais ninguém conseguiu ver a criação original.
 
3 - Foi já nos anos 80 que aconteceu a grande busca da coreografia perdida. Um trabalho de investigação arqueológica que nasceu do encontro de três vontades. Primeiro, o criador da companhia americana Joffrey Ballet encontrou Marie Rambert, assistente de Nijinsky, e ficou com as notas do coreógrafo. Mais tarde encontrou-se com Milicent Hodson, que estava a fazer uma tese sobre os Ballets Russes, e com Kenneth Archer, um estudioso do trabalho de Roerich, o autor da cenografia e do guarda-roupa. Daí resultou uma remontagem histórica que estreou em 1987 e que permanece até hoje.

4 - Quem não sabe nada sobre A Sagração da Primavera pode-se deixar enganar pelo nome e achar que se trata de uma história sobre o florir dos campos e o canto dos passarinhos. Mas aquilo que inspirou Stravinsky foi uma imagem muito mais violenta. Depois de ter feito O Pássaro de Fogo, começou a sentir-se atraído pela ideia de um rito sacral pagão e começou a imaginar homens sentados a observarem a dança até à morte de uma jovem sacrificada ao deus da Primavera.
 
5 - Muitos coreógrafos ao longo dos tempos se aventuraram na sua versão de A Sagração da Primavera, uma espécie de rito sagrado para o mundo da dança. Mas Olga Roriz, autora do espectáculo que vai ser apresentado pela Companhia Nacional de Bailado a partir de quinta, dizia há muitos anos que esta era a única peça que não queria coreografar. Já tinha sido a Eleita (personagem feminina protagonista) em jovem no Ballet Gulbenkian e já tinha ficado muito marcada pela versão de Pina Bausch, mas mudou de ideias. E agora, na sua visão, há uma mudança fundamental: a Eleita já não é uma vítima. É ela que procura a libertação e que quer dançar até morrer.
 
A Sagração da Primavera. Olga Roriz com a Companhia Nacional de Bailado, Teatro Camões, Qui-Sáb 21.00, Dom 16.00. Bilhetes de 5€ a 25€.

 

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