Companhia Nacional de bailado, entre o ar e o fogo
Diário de Notícias
O novo espectáculo enaltece o 'ballet' clássico no seu purismo mas também no seu cruzamento com o tango argentino
É com o azul de Serenade, o branco etéreo de Adágio Hammerklavier e vermelho fulgurante de 5 Tangos que a Companhia Nacional de Bailado celebra, no espectáculo estreado ontem, no Teatro Camões em Lisboa, a dança como movimento e o ballet clássico como fonte inesgotável de criação.
"A dança pode falar sobre tudo. A vida humana é uma imensa coreografia, se estivermos atentos, tudo pode ser usado como tema para dançar. Mas a dança é movimento, não é teatro."
É assim que o coreógrafo holandês Hans van Manen, autor das peças Adágio Hammerklavier (em estreia em Portugal) e 5 Tangos explica a elaboração destas duas obras profundamente ancoradas na técnica clássica.
Apesar de o espectáculo abrir com a obra Serenade do consagrado coreógrafo Balanchine, o destaque deste programa vai para Adagio Hammerklavier , criado por Hans van Manen em 1973 e que é agora dançado pela primeira vez por uma companhia portuguesa. "Apesar de já ter muitos anos é maravilhoso vê-la dançada novamente e ver que continua actual", disse ainda o coreógrafo, de 82 anos.
"Esta peça nasceu ao som da música de Beethoven tocada em andamento lento", conta. "Ela fez- -me pensar no mundo e nas relações entre as pessoas, que são como uma roda que começa a girar a grande velocidade e depois vai desacelerando. E foi aí, nesse instante, que eu me inspirei para criar esta peça", explicou.
À beleza diáfana e contida deste Adágio, sucede a exuberância de 5 Tangos, onde Van Manen recorre à música de Astor Piazzola e à dança tradicional argentina para compor um bailado feito de movimentos fogosos, onde os bailarinos evocam a paixão do tango através dos gestos estilizados e rigorosos do ballet clássico.
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