A VIDA É SEMPRE A PERDER
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Catarina Homem Marques

E isso pode ser ouro sobre azul, mesmo quando o que se perde é D. Sebastião. Perda Preciosa junta André e. Teodósio, Rui Lopes Graça e a Companhia Nacional de Bailado num espectáculo que deixou Catarina Homem Marques com tendência para o desapego.
Há que saber perder, até porque, como já nos ensinaram os Xutos & Pontapés, a vida é sempre a perder. E embora possa parecer, não é assim tão descabido falar de Xutos num texto em que se está a falar sobre um espectáculo da Companhia Nacional de Bailado. Em Perda Preciosa, uma encenação de André e. Teodósio com coreografia de Rui Lopes Graça que se estreia esta quinta-feira, convém que se chegue ao Teatro Camões preparado para o desapego total e sem pensamentos padrão.
Não há nenhum erro ortográfico no título do espectáculo. Aquilo que é precioso é mesmo a perda e não a pedra, como é mais habitual. “A Luísa Taveira lançou-me a premissa de fazer alguma coisa sobre D. Sebastião. E eu estive a pensar o que queria fazer em relação a essa jóia da coroa e preferia que essa perda tivesse sido preciosa e não danosa, como é visível em tudo o que é filosofia portuguesa”, explica André e. Teodósio. Ou seja, o mito desmitificado. Nada contra D. Sebastião. Nada a favor. Um facto apenas: ele morreu e é preciso continuar a partir daí.
“É preciso saber perder a ordem, a tradição, o padrão. A ideia central é que emerge sempre alguma coisa a partir das coisas negativas. E há que perceber como podes transformar isso numa mais-valia.” O tal ouro sobre azul de que todos falamos sem saber porquê e que se transforma aqui em cenografia.
D. Sebastião morre logo no primeiro acto, como é típico no ballet. Mas nada mais é típico além disso e de uma ou outra dança tradicional portuguesa. “Tudo deixa de ter interesse quando se torna um apego. Esta é a verdadeira questão. A ideia de ficarmos agarrados a alguma coisa que nos impossibilita, o seguidismo”, acrescenta Rui Lopes Graça. Até porque a perda aqui é de tal ordem que nos obriga a perder todos os preconceitos sobre a própria criação coreográfica.
“Não me interessa a ideia do ballet contra a dança contemporânea ou até o gesto quotidiano contra a dança. As formas são indiferentes como os mitos são indiferentes”, diz o encenador. E conta com o assentimento do coreógrafo: “Interessa deixar em branco, a liberdade. E conta sobretudo a atitude que temos quando usamos a forma.” E por isso o movimento do espectáculo é assumido como uma espécie de jogo de pingue-pongue com a relutância do espectador, como se jogou com a relutância dos bailarinos. Há bailado e dança contemporânea, e vários retratos da história da dança, mas há também uma rave, um jogo de futebol e até slow motion.
“Nós queremos ter tudo. Texto, música, pessoas que jogam à bola e dançam, vídeo, coisas teatrais e coisas reais”, afirma Teodósio. E até há em palco um pequeno espaço português que foi alugado a terceiros, desde uma banda rock a um agente turístico.
Tudo com conceptualização. Tudo em harmonia. “Isto do encenador e do coreógrafo já se fez no passado mas desta maneira tenho a certeza que somos os primeiros. A nossa vitória foi também uma perda, a perda do ego individual. Não sou eu que acho nem ele. Somos nós que achamos”, diz Lopes Graça. “É como estar a fazer amor mas é trabalho”, completa Teodósio. “E eu não mito”, um trocadilho que prova a teoria e que encerra o dia com uma gargalhada cúmplice.
O espectáculo estreia-se quinta no Teatro Camões e está em cena até dia 29. Qui-Sáb 21.00, Dom 16.00. 5€ a 20€.
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