«A UNIÃO QUE FAZ A FORÇA TAMBÉM FAZ A BELEZA»

A abertura da nova temporada da CNB evidenciou o benefício de associar contextos artísticos e institucionais muito diferentes. Du Don de Soi emerge do triângulo criado pela CNB, o festival Temp's d'Images e o coreógrafo Paulo Ribeiro, a quem coube o desafio de criar uma dança inspirada na obra do realizador Andrei Tarkovsky. O coreógrafo fez um trabalho lindíssimo, marcado pela sua assinatura inconfundível mas também iluminado pela viagem a um território desconhecido, que adicionou, à sua identidade profissional madura, algo novo e muito atraente. A companhia ficou com a obra-prima e deu aos 32 bailarinos o exercício de uma linguagem versátil, porventura desestabilizadora, que convoca os diferentes talentos da dança mais formal e acrobática, da dança mais visceral e orgânica, da dança improvisada ou mais ritualista. O festival, por seu lado, inaugurou com uma das melhores peças do ano.
Paulo Ribeiro partilha o mérito com um excelente conjunto de colaboradores na iluminação, na música, nos figurinos e na imagem. Esta última incide atrás, no fundo negro, nas cortinas laterais e, por vezes, à frente, num ecrã invisível; a projecção dá a ver intimidade (grandes planos de pessoas), cria cenários oníricos (paisagens naturais e elementos do quotidiano rural) e faz espelho da cena, como um eco, que confunde a realidade (com pré-filmagens das mesmas acções em planos frontais ou picados). A imagem e a acção ao vivo complementam-se e amplificam-se com soluções muito simples que têm efeitos fantásticos.
A influência do cinema de Tarkovsky na dança de Ribeiro sente-se na transição suave entre cenas, na exaltação do poder paisagístico e escultórico da massa corporal e nas referências citadas, como o fogo, a água e os seres suspensos; é numa marcha contínua e evolutiva que decorrem mudanças e surgem novos quadros, como rastos deixados pela acção anterior.
Foi assim que, de um túnel de pessoas onde acontecia um desfile festivo de duetos emocionados, se passou para uma multidão onde todos falam (dançam) ao mesmo tempo e, à vez, solos, duetos ou trios chefiam, por instantes, reacções do grupo; essa confusão organiza-se depois numa roda que gira, onde cada um, movendo-se individualmente, puxa ou empurra o vizinho, até todos encontrarem, no chão, um uníssono circular e apaziguador. Percorrendo e construindo formas precisas no espaço, com movimentos personalizados ou frases coreográficas comuns, o colectivo tem uma energia ágil, principalmente contemplativa e pontualmente dramática.
Apesar da abstracção e da poética definidoras do espectáculo, Du Don de Soi emana também uma vigorosa sensação de comunidade, significativa de que a união que faz a beleza também faz a força. É uma peça a não perder, que continua em Lisboa até amanhã, estará no Teatro Nacional de São João, no Porto, a 11 e 12 e segue para digressão nacional.
Texto Paula Varanda Fotografia Daniel Rocha
Público · 05/11/2011
p. 12
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