BELEZA INTERIOR
Expresso Atual Cláudia Galhós
São 36 bailarinos em cena no espectáculo "Du Don de Soi", que Paulo Ribeiro coreografou para a Companhia Nacional de Bailado, inspirado no universo cinematográfico do realizador russo Andrei Tarkovsky e que esta semana se estreia.
O desafio foi lançado pela diretora da CNB, Luísa Taveira, tendo em conta a colaboração com o festival Temps d'Images, que se instala em Lisboa e cruza as artes vivas e a imagem registada. O tema e o grande elenco são apenas dois condicionantes de uma equação complexa que é o de criar um espectáculo de dança.
Passaram seis anos sobre a primeira e única vez que Ribeiro compôs uma coreografia para um grande elenco. Calhou ser também para uma companhia de repertório, tal como a CNB é, embora mais contemporânea. Era o Ballet Gulbenkian. Calhou também que Ribeiro era então o diretor Artístico do BG, que nesse mesmo ano desaparecia. A peça era "Organic Beat", inspirada na música de John Cage. Eram 32 bailarinos em palco. Perante aquele elenco e aquela música, a linguagem do coreógrafo tornava-se mais pura, mais contida e despida, em combinações de dissonância que eram da ordem do sonoro mas também do comportamento físico. Não se ouviam palavras e a ironia que caracteriza as suas peças para a sua Companhia Paulo Ribeiro diluía-se num padrão mais geométrico e abstrato da relação entre entre os intérpretes. É a esta tendência que regressa neste "Du Don de Soi". Mas Tarkovsky não é John Cage e cinema não é música. E a dança pode ser tantas coisas...
Por uns dias, a CNB ensaiou nas antigas instalações no coração de Lisboa, no Chiado. É ali que repetem a procura de um outro tempo para o gesto, que Paulo Ribeiro quer mais lento do que lhe é habitual. É um tempo que associa à poética que tanto admira no cinema de Tarkovsky e ao exercício de uma interioridade, que transporte a dança para uma dimensão do sensível mais profunda e delicada.
"A maior parte dos intérpretes de repertório, pelo que estão habituados a fazer, trabalham o virtuosismo do músculo, da proeza, do reproduzir. Aqui, eles não reproduzem, têm de sentir. E se não sentem, quando o impulso lhes é exterior, têm de arranjar mecanismos internos e interiores para poderem entrar numa forma de estar que dê sentido a esse estar. Assim podemos ser levados por esta poética. Para mim, a peça vive da riqueza da individualidade somada."
O resultado é uma "coreografia de interior", nascida no sentimento ou "no virtuosismo interior", e não por uma procura da forma. E aqui está também Tarkovsky, que já está no título. "Ele falou muito deste 'dom de si', principalmente no último, 'Sacrifício', que era uma quase súmula de todos os outros. Tem a ver com a capacidade que temos de nos darmos, de nos entregarmos, de nos despojarmos em relação a algo maior. É a tal questão do sacrifício, que tem a ver com a capacidade de entrega..."
Há uma tensão que se prenuncia naquela dança. Mesmo nos momentos de festa, há a iminência do desastre. E em tudo está Tarkovsky. O lugar da beleza é uma das procuras que empreende Ribeiro. "O desafio maior para mim tem a ver com criar uma suposta beleza, mas que não seja forçada. O belo da natureza humana, onde existe uma suspensão, como as cores pastel do Tarkovsky, mas ao mesmo tempo um pulsar interior forte..."
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