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Noite de paixão
EXPRESSO ACTUAL
Claudia Galhós


Da diferença entre homens e mulheres nasce uma dança de sedução assinada por Olga Roriz para a CNB


Em palco estão 32 bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. São 16 homens e 16 mulheres. Os jogos de sedução instalam-se. Por uma noite, eles rondam as mulheres, escolhem-nas. Mas a escolha que fazem só é possível porque elas deixam que eles a façam. Olga Roriz está de volta à composição das regras de atração, ou guerra de sexos, tornadas dança. É “Noite de Ronda”, a nova criação da CNB que estreia esta semana.


Foto: Ricardo Brito


A DANÇA ENQUANTO GUERRA DE SEXOS NA COMPANHIA NACIONAL DE BAILADO

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O ambiente é-lhe familiar. Esses movimentos de aproximação e abordagem entre homens e mulheres. O equilíbrio das forças mantém-se instável. Umas vezes ganham eles. Outras ganham elas. Mas, desta vez, “há algo de ascensão das mulheres”, diz a coreógrafa ao Expresso. A conversa tem lugar a duas semanas da estreia. O espetáculo ainda está em ensaio no estúdio. Olga Roriz ainda não o viu completo, em palco. Mas tem um pressentimento. “Eles estão ali para elas. Estão para elas de um modo tranquilo. Sinto que se vai sentir isso.” E, para os menos atentos, uma pista: aqueles são homens fiéis. O amor é para toda a noite.

Esta é a terceira peça que Olga Roriz cria para a CNB. A primeira, “As Troianas”, de 1985, propunha uma visão arrojada à época sobre as mulheres, com um elenco feminino vestido de negro, os cabelos soltos e os pés descalços. Em 2003, cria “Pedro e Inês”, onde a tensão trágica do amor conduz a uma dança de morte dentro de uma piscina com água.


Nas peças que tem criado para a sua companhia, fundada em 1995, a coreógrafa ensaia diferentes olhares sobre o eterno tema das relações. E em cada uma partilha uma visão pessoal sobre cada um dos sexos. Aqui, “os homens são mais homens e as mulheres são mais mulheres”.

Quer ela dizer que, nas cenas que construiu para os homens, eles surgem mais homens porque se afirmam como gangs, enquanto elas traduzem um espírito de cumplicidade feminina, com força, “quando se despem, ficam de tronco nu”. A mulher combatida, pulsante de vida, que Olga Roriz criou e interpretou a solo no ano passado em “Electra” ressurge em espírito naqueles corpos no feminino. Separados, cada género afirma mais fortemente a sua sexualidade, e o ambiente pacifica-se. O encontro entre os dois grupos resulta em confronto, “numa luta corpo a corpo”.

Para a Companhia Olga Roriz (COR), essa visão amorosa instável faz-se de quadros que se sucedem entre dança e teatro. Mas, nesta criação para a CNB, fica a dança. Ainda assim, por detrás dessa composição do movimento habita uma outra teatralidade, que tem a ver com o que a coreógrafa qualifica de “um lado emocional”, presente na paixão e “no que se desenvolve na relação entre dois corpos e no que se constrói em termos de dinâmicas, de olhares”.

O elenco de bailarinos da CNB contribuiu para esta opção pelo movimento puro. Mas “Noite de Ronda” surge também no seguimento da experiência de “A Sagração da Primavera”, estreada em 2010 no CCB. O desdobramento do vocabulário coreográfico fez-se então num elenco de 21 bailarinos. Desta vez, Olga Roriz está mais próxima de realizar o sonho que tem desde os tempos da Gulbenkian: criar para grandes elencos. E assim nasce a promessa de uma noite de encontros, com duetos, solos, confronto físico... Uma noite de homens e mulheres vestidos de gala num armazém decadente. E uma atmosfera musical atual e diversa, onde há lugar para dez minutos de trance, numa energia e vibração que é sonora mas também da dança.

 

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