PROGRAMAÇÃO
TEATRO CAMÕES


Coreografia Rui Lopes Graça · Música original João Lucas



Demos-lhe o nome GOLD, derivado de Goldberg.

Começámos tendo como ponto de partida as duas gravações históricas de Glenn Gould das Variações Goldberg. Trazíamos a intenção de trabalhar sobre a experiência musical de Gould, cujo olhar sobre esta partitura tanto se transformou no espaço de 26 anos. Pretendíamos refletir acerca da mudança do olhar sobre uma mesma coisa. A partitura de Bach existia como objeto de fundamentação de uma intenção.

Viajámos. Apresentámo-nos. Começámos o trabalho. No primeiro dia, para além de outros exercícios, propus que cada intérprete buscasse um momento marcante da sua vida que se situasse a uma distância de 26 anos. Num tempo em que quase todos eram crianças e em que alguns ainda não tinham nascido. No dia seguinte, cada um começou a falar. Os nascidos de memória e os não nascidos através de histórias desse mesmo tempo, contadas por familiares.

Aconteceu o inesperado. As histórias eram arrebatadoras. Juntos choráramos e rimos; juntos abrimos o coração e sentimos essa condição que é ser gente. Cada um transportara em silêncio, durante anos, uma dura história repleta de combates e cujas vidas são a prova do ouro que existe em cada ser humano, da capacidade de vencer e realizar.

Silenciosamente fomos subtilmente descartando as intenções teóricas geradas noutras latitudes e abrimos o coração a esta nova experiência vivida nesta grandiosa cidade de Maputo.

GOLD começou a nascer. Encontrámos pontos de ligação entre as diferentes experiências. No retrato de um tempo que ainda agora existe, confrontámos os múltiplos olhares, harmonizando-os; esses vários olhares do homem e da sua geografia.

Trocámos gestos e intenções. Criámos um discurso coreográfico imbuído de um entendimento e confiança que germinou.

Nichiren Daishonin, monge Budista do séc. XIII, afirma num dos seus escritos: “Uma pessoa não deita fora o ouro, só porque o saco em que se encontra está sujo”.

As aparentes agruras, dúvidas, contradições e incapacidades, não deixam abafar este tesouro comum que é a vida. GOLD é uma celebração da vida e da esperança.

Porque a vida e a experiência humana são um tesouro.

Agora GOLD é mesmo ouro.

Para as minhas filhas Inês e Leonor

Rui Lopes Graça
Maputo, 28 de Maio de 2011



Também sobre a música em GOLD.

Esta peça nasceu da intenção de confrontar uma obra referencial da história da música ocidental, as “Variações Goldberg” de J. S. Bach, nos registos gravados por Glenn Gould em 1955 e 1982 – só por si um testemunho ímpar sobre o poder de apropriação de uma obra e a sua maturação ao longo de uma prodigiosa vida artística - com a cultura musical popular de Moçambique por via de intérpretes de excelência reunidos na sua única companhia profissional – a Companhia Nacional de Canto e Dança de Moçambique.

Deste programa inicial sobra-nos uma referência no título, GOLD.

Ainda assim revelo esta pré-história conceptual porque toda a criação de GOLD emana deste momento inicial. O fascínio pela audição comparativa das duas gravações trouxe-nos a interrogação do tempo como matéria-prima. Foi a interrogação do tempo na vida destes intérpretes que gerou a estória que fomos desfiando ao longo de um mês e meio na cidade de Maputo. A ideia inicial de criar uma osmose exuberante entre a música de Bach e a tradição musical moçambicana foi-se diluindo à medida que se nos revelavam as cruas identidades com que passámos a conviver. Uma espécie de implosão iniciática.

Seguiu-se o arquitectar do cruzamento veloz e exaltado dos nossos olhares. Um encontro, no âmago da tradição da cultura moçambicana, com a sua causalidade remota. Descobrir nela a raiz das vivências e o seu labor expressivo, expressão constante e múltipla, plural nas vozes, nos ritmos, no som que é a sua história, no som inscrito na sua geografia. Mais do que tudo, ouvimos a alma, com ouvidos que transportam na sua memória um acervo de referências estrangeiras a este mundo, a nossa cultura orgulhosa e erudita, o nosso ocidente particular.

Deixámo-nos achar por um lugar vago, primordial, em que foi germinando no dia-a-dia um percurso colectivo de criação feliz e pouco cerimonioso. Assim foram criadas as peças deste jogo. Fomos desenhando um labirinto com ideias que, nascendo da observação e assimilação desta realidade musical, se despenhavam em novas realidades mestiças e imaginárias. Uma poesia composta por palavras nativas que ambicionam um dialecto universal. Por muito abstracta que fosse a nossa invocação, logo era reflectida num falar autêntico. Amplificado. Justo.

Aos poucos fomos criando dispositivos de composição que se replicavam sempre em novas ideias, em novas formas de olhar, em novas transfigurações. Este vocabulário é um gesto de partilha, ressonância das culturas ocidental e africana no palco do mundo.

Quando falo em nós falo de todos, não é fácil distinguir o protagonismo de cada um, o meu, o do coreógrafo, o dos intérpretes. O que levou a quê? Não é fácil distinguir este momento colectivo de criação da unicidade da vida de cada um.

É a esse brilho individual, habitualmente escondido por camadas de minério vulgar, que damos honras de título.

Das variações Goldberg resiste ainda a referência ao baixo cifrado que as estrutura numa das composições iniciais da peça.

Estamos quites.
João Lucas
Maputo, 29 de Maio de 2011



FICHA TÉCNICA

Coreografia Rui Lopes Graça · Música original João Lucas

Companhia Nacional de Canto e Dança de Moçambique






Associado à projecção do filme
KUXA KANEMA: O NASCIMENTO DO CINEMA





LOCAL
Lisboa, Teatro Camões



DATAS

GOLD

Junho 2011
24 e 25 Junho às 21:00



BILHETES

Reservas para 25 de Junho
às 21:00 já só possíveis
por telefone: (+351) 21 892 34 77.
através da bilheteira do Teatro Camões.
horário: 13h00 até ao início do espectáculo.



BIBLIOTECA DIGITAL

CARTAZ · POSTAL · NEWSLETTER
PROGRAMA · VÍDEO · SPOT
FOTOGRAFIAS



Classificação etária

M/3



Patrocinador Exclusivo:





Apoios:



Embaixada de Portugal em Maputo
Grupo Pestana
Embaixada de Moçambique em Lisboa
IPAD



Em parceria com
: