Companhia Nacional de Bailado: 37 anos em 15 andamentos

2014
Reforçando a presença de autores portugueses nas suas temporadas, a Companhia Nacional continua a proporcionar criações inéditas: Olga Roriz (Orfeu e Eurídice e, em ano de centenário, A Sagração da Primavera), João Botelho (a curta-metragem La Valse), Paulo Ribeiro (Du Don de Soi), Clara Andermatt, João Lucas e Artur Pinheiro (Dance, Bailarina Dance!), Fernando Duarte e Edgar Pêra (um renovado e cinemático Lago dos Cisnes), Rui Lopes Graça e André e. Teodósio (Perda Preciosa). Mas na nova década não deixou de apresentar Romeu e Julieta, A Bela Adormecida (Petipa, versão de Ted Brandsen) e retomou ainda Cinderella, de Corder, com cenário e figurinos de Yolanda Sonnabend. Enquanto isso, consolidou novas tradições: ensaios gerais solidários com organizações não-governamentais; projetos de aproximação à dança para públicos jovens; o atelier “Gesto Contínuo”, que convida os bailarinos à criação. Cabe a Anne Teresa de Keersmaeker, porém, a participação mais marcante destes anos, com a entrada no reportório da companhia das coreografias Prelúdio à Sesta de Um Fauno, Grosse Fuge, Noite Transfigurada e Mozart Concert Arias – Un Moto di Gioia. No ano em que a programação se associa à poesia de Sophia, teremos Tempestades (Lopes Graça, Pedro Carneiro), Lídia (Paulo Ribeiro, Luís Tinoco) e um reinventado Quebra Nozes Quebra Nozes (Fernando Duarte, André e. Teodósio) para o Natal.

2011

uma coisa em forma de assim foi o nome, decalcado de um título de Alexandre O’Neill, da proposta da CNB para o dia mundial da dança: uma junção das linguagens de nove coreógrafos portugueses. Clara Andermatt, Francisco Camacho, Benvindo Fonseca, Rui Lopes Graça, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Olga Roriz, Madalena Victorino e Vasco Wellenkamp desenham uma façanha conjunta, dançada pela companhia e unificada pela composição musical e interpretação do pianista Bernardo Sassetti (que nos deixaria no ano seguinte). Tratou-se de uma das primeiras apostas de Luísa Taveira, que retomou o cargo de diretora artística da CNB em outubro de 2010. Logo depois, a Companhia partia em digressão, mostrando este trabalho tão distintivo em 18 cidades do país (continente e ilhas). O Teatro Camões continuará, entretanto, a acolher uma diversidade de espetáculos: Os Corvos, de Josef Nadj e Akosh S.; obras de Lopes Graça e João Lucas para as companhias nacionais de Moçambique e de Angola; The Old King de Miguel Moreira, Romeu Runa e Pedro Carneiro; espetáculos das escolas de dança e música do Conservatório Nacional, do Quorum Ballet, da Companhia Olga Roriz, das companhias teatrais Cão Solteiro e Teatro Praga, são alguns exemplos.

2010
Alinhando com o movimento que, por todo o mundo, homenageou o centenário dos Ballets Russes de Serguei Diaghilev, a CNB preparou um triple bill apresentado em Almada, Braga, Faro e Lisboa, composto pela coreografia original de As Bodas, de Nijinska (estreada em Paris em 1923), Fauno (estreada pelo Ballet Gulbenkian em 1990 e refeita pela Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, em 2001) e a estreia absoluta de A Sagração da Primavera do catalão Cayetano Soto, concebida por encomenda para a CNB. É, assim, com um olhar no passado e outro no futuro, que se celebra a história da dança e dos seus principais mentores: antes da versão de Soto, a CNB estreara a obra-prima modernista de Nijinski e Stravinski (segundo a reconstituição de Millicent Hodson e Kenneth Archer) por ocasião de Lisboa 1994 Capital Europeia da Cultura e, dez anos antes, executara a sua primeira Sagração, na versão assinada pelo coreógrafo Carlos Trincheiras.

2009
Vasco Wellenkamp acumula a direção artística da CNB e a programação do Teatro Camões a partir de 2008, recuperando obras de técnica contemporânea, formulando convites a jovens criadores e desafiando coreografias mais recuadas a uma nova remontagem. Com essa perspetiva, gizou, nos seus três anos como diretor, programas assumidamente transversais, como Quatro Coreógrafos, no qual criações suas e de Olga Roriz (Isolda, de 1990) convivem com estreias (À Flor da Pele, de Rui Lopes Graça) e com peças internacionais (Strokes Through The Tail, da irlandesa Marguerite Donlon). A ação programática do diretor artístico continua a proporcionar à companhia o enriquecimento do seu reportório com estreias absolutas, como Four Reasons, do coreógrafo romeno Edward Clug, Come Together, de Rui Horta, Requiem, de Rui Lopes Graça e, de Wellenkamp, A chuva cai na poeira como no poema. Neste ano, a Fundação EDP renovou o estatuto de mecenas principal da CNB e de mecenas exclusivo da digressão nacional da CNB, relação estabelecida desde 1998.

2007
O último ano de Mehmet Balkan à frente da companhia, que abriu com a estreia da sua versão de O Lago dos Cisnes, foi marcado pela reestruturação que voltaria a associar a CNB ao Teatro Nacional de São Carlos, sob gestão do recém-criado Opart – Organismo de Produção Artística, EPE. No ano em que festeja o seu 30º aniversário, a CNB dançou peças memoráveis de Hans van Manen, Heinz Spoerli, Nacho Duato ou Jiří Kylián, e percorreu o país com o Programa Primavera, que reuniu coreografias de Mauro Bigonzetti, Gagik Ismailian, Olga Roriz e William Forsythe (a sua peça-tributo a Balanchine, The Vertiginous Thrill of Exactitude). Enquanto isso e como parte das comemorações, o Teatro Camões acolhia o Tanztheater Wuppertal de Pina Bausch com Für die Kinder von gestern, heute und morgen. Ainda em 2007, terminou a colaboração de Mark Deputter com o Teatro Camões, após duas temporadas como programador. A convite da diretora Ana Pereira Caldas, Deputter fizera conviver nomes da criação emergente, como Ana Mira ou Luís Guerra (programa Quatro Canções), com coreógrafos consagrados como Alain Platel ou Vera Mantero, presentes nos ciclos Como Tu e Eu, Let’s Dance ou Ciclo Meg Stuart.

2003
Um dos maiores êxitos da CNB nesta década é de autoria portuguesa e de temática histórica. Pedro e Inês, coreografado por Olga Roriz, estreou em julho de 2003 em Lisboa, passou por Coimbra, Porto, Figueira da Foz, Évora e Faro, e foi um embaixador privilegiado da cultura portuguesa no mundo, tendo sido representado, nos anos seguintes, nas digressões à Rússia, à Tailândia e ao Brasil. Tinham passado 18 anos desde As Troianas, a primeira e única criação de Olga Roriz para a CNB, a convite de Armando Jorge, quando as bailarinas da companhia dançaram descalças pela primeira vez. “A coreógrafa que melhor conhece a companhia”, nas palavras de Luísa Taveira, e que aqui remontou Os Sete Silêncios de Salomé, em 2005, Treze Gestos de um Corpo, em 2007 e Isolda, em 2009, estará de regresso em 2011, com uma nova encomenda, Noite de Ronda.

2002
Um programa constituído pela reposição do bailado Giselle ou Les Willis (de Georges Garcia segundo Petipa, Coralli e Perrot) assinalou as comemorações do 25º aniversário da CNB, sob direção artística de Mark Jonkers, cumprindo-se também outras ações, como a edição de uma monografia amplamente ilustrada, da autoria de Susana de Jesus Santos. Os bailarinos Isabel Fernandes, Guilherme Dias, Paola Cantalupo e Peter Lewton-Brain, “Giselles” e “Albrechts” marcantes da história deste bailado na CNB, evocam no programa de sala a primeira produção de Giselle, em 1970, pelo Grupo Gulbenkian de Bailado, cuja distribuição incluía Isabel Santa Rosa (Giselle), Armando Jorge (Albrecht), Ulrica Caldas (Myrtha) e Carlos Trincheiras (Hilarião). No final deste ano Mehmet Balkan assume a direção artística da companhia, que poucos meses depois finaliza a sua transferência para o Teatro Camões, no Parque das Nações, passando a dispor de um espaço próprio em permanência.

1998
Entre os acontecimentos importantes para a afirmação internacional da CNB, evidencia-se de imediato The Lisbon Piece. Trata-se, até à data, da única coreografia que a flamenga Anne Teresa de Keersmaeker concebeu com uma companhia que não a sua, Rosas. Para a peça lisboeta foram escolhidos cinco bailarinos, David Fielding, Filipa de Castro, Filipe Portugal, Isabel Galriça e Xavier Carmo, e as percussões de Thierry de Mey e Eric Sleichim. Esta obra, momento alto no reportório da CNB, foi na estreia acompanhada de dois trabalhos, Artifact II e In the Middle Somewhat Elevated, de outro dos protagonistas da coreografia contemporânea mundial: o norte-americano William Forsythe. Em 1998, é publicado o livro de fotografias de Inês Gonçalves Companhia Nacional de Bailado. Sob a direção de Jorge Salavisa, até 1999, e de Luísa Taveira, em 1999-2000, intensifica-se uma ação reformadora da imagem institucional da companhia, com sucessivos convites a fotógrafos de renome: António Júlio Duarte, Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, Inês Gonçalves, Sara Anahory e Paulo Catrica. De 2001 data a grande produção Romeu e Julieta de Prokofiev (remontada na temporada 2011/2012) com coreografia de John Cranko, cenário de João Mendes Ribeiro e figurinos de António Lagarto.

1997
O Teatro Luís de Camões é desenhado pelo Gabinete Risco, sob direção do arquiteto Manuel Salgado, e englobado no projeto Expo’98, decorrendo a sua construção entre 1997 e 1998. A CNB atravessa uma quase “segunda fundação”, nas palavras de Rui Vieira Nery, à época secretário de Estado da Cultura, responsável pela nomeação do diretor Jorge Salavisa. Um dos objetivos programáticos de Salavisa foi introduzir um novo reportório, aliado a uma nova imagem, que remetia para a revelação de novos valores. A sua primeira produção foi Cinderella, de Michael Corder, em março de 1997 e, em agosto, estreava Cantoluso, da autoria de três então bailarinos da companhia, revelados nos estúdios coreográficos: Armando Maciel, Rui Lopes Graça e David Fielding (este falecido em 2008). Cantoluso, sobre a musicalidade da expressão lusófona – o fado, a morna e o chorinho – foi coordenado por Nuno Carinhas e teve uma extensa digressão nacional. Rui Lopes Graça continua a coreografar intensivamente para a CNB: Dançares (1999) ou Savalliana (2000) são outras das suas peças mais bem sucedidas, que uma década mais tarde continuam a ser apresentadas por todo o país.

1995

Na primeira metade dos anos 1990 dá-se uma fase de novas alterações no funcionamento institucional da CNB. Em 1992, a companhia desvincula-se do Teatro Nacional de São Carlos, passando a funcionar como um organismo autónomo, tutelado, entre 1994 e 1998, pelo Instituto Português do Bailado e da Dança. A lei orgânica que regula a sua atividade seria publicada em 1996. Isabel Santa Rosa, que sucedeu a Armando Jorge na direção artística da companhia, empreendeu entre 1994 e 1996 um sentido modernizador, produzindo As Bodas e A Sagração da Primavera nas versões originais. Em 1995, novo marco, direcionado para a técnica clássica: a estreia de La Fille Mal Gardée, na versão coreográfica de Georges Garcia (a partir de Mordkin e Nijinska), proporciona contacto com esta obra referencial, por se tratar do mais antigo bailado (1789) ainda hoje remontado pelas companhias de reportório. Ao longo desta década, a CNB continua a dançar em teatros cedidos.

1989
Ao longo da sua história, a CNB tem vingado o propósito de ser uma companhia de âmbito nacional, apesar de estar sedeada em Lisboa. Isso o atestam as quase 70 cidades e vilas onde já atuou, uma empresa não isenta de dificuldades: antes de o país se encontrar apetrechado de equipamentos, que seriam construídos ou reabilitados mais tarde, a companhia atuava em palcos pré-fabricados, em ginásios, pavilhões, até no Salão Nobre do Glória Futebol Clube em Vila Real S. António. Rui Vieira Nery considera que “mesmo os setores de vanguarda da chamada nova dança portuguesa, que nesse período despontavam com uma energia notável e que, muito compreensivelmente, se não reviam na orientação estética da companhia, vieram a beneficiar do trabalho intenso de sensibilização para a dança que a CNB ia desenvolvendo à escala nacional com um sucesso assinalável, em paralelo com a ação igualmente decisiva do Ballet Gulbenkian”. O Lago dos Cisnes, D. Quixote, La Sylphide, O Quebra-Nozes, La Bayadère, Paquita, Petroushka, Pássaro de Fogo, foram algumas das coreografias do reportório clássico estreadas pela companhia ao longo da sua primeira década e meia. No Natal de 1989, o público foi contemplado com a primeira produção integral de Coppélia.

1984

A direção de Armando Jorge, que se prolongou por 15 anos, não negligenciou outros reportórios relevantes do século XX, como o legado do expressionismo europeu. A Mesa Verde, icónico trabalho de Kurt Jooss, foi apresentado em 1984. Apesar do ritmo da montagem de espetáculos, temporada após temporada, o diretor entendeu que a companhia se ressentia da escassez de profissionais qualificados, e procurou incentivar a formação de agentes para a dança, no país, quer bailarinos, quer coreógrafos. Em 1984 começava a dar frutos o Centro de Formação de bailarinos, iniciativa que Armando Jorge fundara (funcionou entre 1981 e 1995) e onde estudaram muitos bailarinos, como Ana Lacerda. No Natal desse ano, os alunos participaram num espetáculo pela primeira vez. Por seu lado, o lançamento dos estúdios coreográficos, em 1985, permitiu olhar de forma consequente para a criação emergente. Obras destacadas da história da CNB foram encomendadas nesta altura, como As Troianas, de Olga Roriz (1985) ou Fado (A Severa), de Fernando Lima (1987). A estabilização de propósitos e intervenção, mas com continuada carência de meios, reforçou a institucionalização da companhia, que em 1985 foi integrada no Teatro Nacional de São Carlos.

1982
Serenade, a obra que Balanchine concebeu após a sua chegada aos EUA, em 1934, foi também inaugural na vida da CNB: pela primeira vez bailarinos portugueses executavam uma coreografia deste inovador do ballet do século XX. Depois da estreia, em 1982, muitas outras se seguiriam – Concerto Barroco (1984), Apollo (1987), Tema e Variações (1988), Os Quatro Temperamentos (1991), Agon (1999) e Who Cares? (2002) – até à dedicação de um programa especial, Mr. B., no centenário do nascimento do mestre, em 2004. Ainda no ano de 1982, a companhia estabelece-se nas suas novas instalações: o antigo Real Gymnásio Clube de Lisboa, o atual n.º 20 da Rua Vítor Cordon. Nesta década, intensificam-se as digressões internacionais: a Macau e à China, em 1983, e ao Brasil, em 1985.

1979
Coreógrafo, bailarino (foi o primeiro “Albrecht” português), mestre de bailado – e, sob o pseudónimo Da Silva Nunes, também cenógrafo e figurinista –, Armando Jorge estreou em 1979 a sua primeira coreografia ao serviço da CNB: Carmina Burana. Outras autorias marcantes se seguiriam (O Quebra-Nozes em 1984, O Lago dos Cisnes em 1986), algumas das quais ainda hoje permanecem no reportório da CNB. Nos primeiros anos de trabalho, a companhia estava instalada no Teatro Nacional de São Carlos e os seus elementos fundadores foram Luna Andermatt, Vera Varela Cid, Pedro Risques Pereira e Armando Jorge, que viria a assumir a direção. Laszlo Tamasik foi o primeiro maître de ballet da companhia, que logo em 1978 dançou Les Sylphides de Michel Fokine. Trinta anos depois, em 2008, Armando Jorge foi condecorado pela Presidência da República com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, pelo seu papel na construção e crescimento da CNB e da dança no nosso país.

1977
A Companhia Nacional de Bailado apresentou o seu primeiro espetáculo no Teatro Rivoli, no Porto, a 5 de dezembro de 1977, tendo a estreia oficial ocorrido no dia 17 do mesmo mês no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. O programa era constituído, entre outras peças, pelo segundo ato do Lago dos Cisnes de Petipa na versão de Brydon Page, com música de Tchaikovski e cenário de Cruzeiro Seixas, e Canto de Amor e Morte de Patrick Hurde, com música de Fernando Lopes-Graça e cenários e figurinos de Júlio Resende. Dançaram o papel de Odette, em dias alternados, Raya Lee e Luísa Taveira. Ao longo das décadas, muitos artistas plásticos, cenógrafos e compositores portugueses colaboraram com a companhia, que nasceu oficialmente em junho de 1977, por despacho do Secretário de Estado da Cultura David Mourão Ferreira (a mesma deliberação extinguiu o Grupo de Bailados Verde Gaio). A companhia foi constituída através de audições em Portugal e em Londres, e contou inicialmente com uma maioria de bailarinos estrangeiros. Mas desde cedo se destacariam intérpretes nacionais de grande nível, como Miguel Lyzarro (falecido em 1996), Maria José Branco ou Cristina Maciel.

Texto: Mónica Guerreiro
Março de 2014